A GASTRONOMIA NO OLHAR DO CHEF MARCOS LÔBO A PARTIR DO LIVRO O RIO DE JANEIRO NO TEMPO DOS VICE-REIS,

 


A GASTRONOMIA NO OLHAR DO CHEF MARCOS LÔBO A PARTIR DO LIVRO O RIO DE JANEIRO NO TEMPO DOS VICE-REIS,

Marcos Lôbo
Pesquisador e Investigador da Gastronomia Brasileira

Data: 10 fev. 2026 – 08h24

Fonte do Chef Marcos Lôbo,


RESUMO

Este artigo científico apresenta uma análise histórica e gastronômica baseada na leitura interpretativa da obra O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis, relacionando os relatos históricos do século XVIII com a formação da gastronomia brasileira sob o olhar investigativo do chef e pesquisador Marcos Lôbo. A pesquisa parte da experiência pessoal do autor, que residiu por décadas na cidade de Petrópolis (RJ), e da leitura crítica da obra recebida durante atividade educacional na Cruz Vermelha. O estudo evidencia a construção alimentar colonial resultante da convergência entre matrizes portuguesa, francesa, indígena e africana, destacando práticas culinárias, banquetes aristocráticos, alimentação popular e transformações técnicas ao longo do tempo. A análise demonstra que a gastronomia brasileira nasce da adaptação cultural e da ressignificação dos saberes culinários europeus em diálogo com os ingredientes locais e práticas tradicionais dos povos originários e africanos.

Palavras-chave: Gastronomia brasileira; Período colonial; História da alimentação; Vice-Reinado; Cultura alimentar.

Fonte do Chef Marcos Lôbo,
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1. INTRODUÇÃO

A gastronomia brasileira constitui-se como resultado de múltiplos encontros culturais ocorridos durante o processo colonial. Compreender sua formação exige revisitar documentos históricos, relatos literários e registros sociais que descrevem hábitos alimentares e práticas culinárias.

A leitura da obra O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis surge neste contexto como fonte histórica relevante. O contato com o livro ocorreu durante retorno do autor à cidade de Petrópolis, após anos dedicados à pesquisa gastronômica, quando recebeu o exemplar por intermédio de um livreiro conhecido como “Pelé”, através do amigo Renato Freixela. A obra despertou interesse científico ao afirmar, em suas considerações, o desejo de inspirar novos estudos — motivação que orientou esta investigação.

Sob o olhar do gastrônomo pesquisador, o livro revela um retrato detalhado da alimentação no Rio de Janeiro do século XVIII, permitindo compreender como práticas europeias foram reinterpretadas em território brasileiro, dando origem a uma identidade culinária própria.

Assim, este estudo busca analisar historicamente os elementos gastronômicos descritos na obra e relacioná-los à formação da cozinha brasileira.


2. METODOLOGIA

A pesquisa caracteriza-se como:

  • Qualitativa, por interpretar narrativas históricas e culturais;
  • Bibliográfica, baseada na análise da obra histórica de Luiz Edmundo;
  • Descritivo-analítica, relacionando os registros literários com estudos gastronômicos.

Foram utilizados os seguintes procedimentos:

  1. Leitura integral e análise interpretativa da obra;
  2. Identificação de descrições alimentares, ingredientes e técnicas culinárias;
  3. Correlação entre práticas europeias e adaptações coloniais brasileiras;
  4. Interpretação gastronômica baseada na experiência profissional e investigativa do autor.

A análise seguiu princípios das pesquisas em história da alimentação e antropologia gastronômica.

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3. RESULTADOS

3.1 Gastronomia aristocrática do século XVIII

A obra descreve uma cozinha marcada por excessos, caracterizada por:

  • Uso intenso de gorduras (“graxas”);
  • Molhos complexos e altamente condimentados;
  • Banquetes elaborados para grandes públicos.

Os eventos festivos reuniam porcos inteiros, vitelas, perus, patos e frangos apresentados em grandes travessas de ferro ornamentadas com folhas, flores e frutas. Observa-se que já existia organização de cardápios, embora não denominada formalmente como “menu”.

A tradição culinária europeia aparece fortemente influenciada pela gastronomia francesa, herdeira das práticas cortesãs associadas a cozinheiros históricos como Taillevent, referência na sistematização de receitas reais.

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3.2 Influência portuguesa e francesa

Segundo os relatos analisados, a gastronomia portuguesa colonial incorporou técnicas francesas difundidas por obras culinárias consideradas verdadeiras “bíblias gastronômicas” do século XVIII, como Arte de Cozinha e Cozinheiro Moderno.

Pratos como:

  • Frango à cabidela;
  • Porco acebolado;
  • Preparações com molhos elaborados,

Demonstram origem técnica europeia, posteriormente adaptada ao contexto brasileiro, especialmente no Nordeste.

Ingredientes vindos da Europa — noz-moscada, gengibre, cravo, tomilho, açafrão e alecrim — tornaram-se símbolos de status culinário.


3.3 Alimentação popular e cozinha cabocla

Em contraste com a elite, o povo mantinha alimentação baseada na herança indígena:

  • Mandioca e farinha;
  • Pirões e angus;
  • Beijus e mingaus;
  • Caça e pesca.

Carnes de tatu, paca e capivara eram preparadas no espeto ou moquém, preservando técnicas ancestrais.

A prática de comer farinha com as mãos, descrita por viajantes, revela permanências culturais indígenas que sobreviveram à colonização.


3.4 Alimentação africana no período colonial

Os africanos escravizados consumiam majoritariamente:

  • Frutas;
  • Farinha de mandioca;
  • Alimentos fornecidos pelos senhores.

Mesmo sob condições adversas, contribuíram decisivamente para a formação culinária brasileira, especialmente nas técnicas de preparo e no uso coletivo dos alimentos.


3.5 Casas de pasto e surgimento da identidade culinária

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As casas de pasto representaram espaços intermediários entre cozinha popular e aristocrática. Serviam aves temperadas, caldos e preparações simples acompanhadas de vinho.

Enquanto isso, restaurantes frequentados pela elite ofereciam pratos refinados, como arroz com camarão e pimenta.

Gradualmente, a gastronomia brasileira consolidou-se regionalmente, criando identidade própria.


3.6 Organização dos banquetes

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A descrição dos banquetes organizada por Domingos Rodrigues demonstra sistema estruturado em três cobertas (etapas de serviço), contendo dezenas de preparações entre carnes, aves, tortas e manjares.

Esse modelo revela:

  • Hierarquia alimentar;
  • Teatralidade da mesa;
  • Importância social da comida.

4. DISCUSSÃO

A análise evidencia que a gastronomia brasileira não surgiu de forma linear, mas como processo híbrido.

A cozinha colonial era paradoxal:

  • Europeia nas técnicas;
  • Indígena nos ingredientes;
  • Africana na adaptação e resistência cultural.

O espaço da cozinha, localizado nos fundos das casas, com chão batido e fogão a lenha, revela também a dimensão social da alimentação — considerada ambiente inferior, embora fosse o verdadeiro laboratório cultural do Brasil.

Outro aspecto relevante é a ausência inicial do tomate, hoje base da culinária brasileira, demonstrando como ingredientes mudam de status histórico ao longo do tempo.

A obra de Luiz Edmundo confirma que a gastronomia evolui pela convivência entre culturas, não pela substituição delas.


5. CONCLUSÃO

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A leitura interpretativa de O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis permite compreender a gastronomia brasileira como resultado da interação entre três pilares fundamentais:

  • Matriz europeia (portuguesa e francesa);
  • Tradição indígena;
  • Contribuição africana.

O estudo demonstra que a identidade culinária nacional nasceu da adaptação cultural e da criatividade diante das condições coloniais.

A gastronomia brasileira revela-se, portanto, patrimônio histórico vivo, construído nas cozinhas populares, nos banquetes aristocráticos e nas práticas cotidianas do povo.

Novas leituras e pesquisas tornam-se essenciais para aprofundar a compreensão dessa trajetória e fortalecer o reconhecimento científico da gastronomia como campo de investigação histórica.


REFERÊNCIAS

EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis. 4. ed. Rio de Janeiro: Conquista, s.d.

RODRIGUES, Domingos. Arte de Cozinha. Lisboa: Século XVIII.

FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo. História da Alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Global, 2003.

CASCUDO, Luís da Câmara. História da Alimentação no Brasil. São Paulo: Global, 2011.

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